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The Watcher Of Dreams

The Watcher Of Dreams

15
Abr18

Somos uns sortudos

C.

Há alguns pontos na história humana que me tocam especialmente como ser humano.

Aos 12 anos li O Diário de Anne Frank e, talvez por ser tão nova, fiquei profundamente marcada por este livro. Uma rapariga, pouco mais velha que eu, com inteligência e astúcia peculiares que demonstrava uma maturidade acima do normal para a sua idade. A história dela é a história de milhares. Milhares de pessoas que, devido às suas crenças, foram assassinadas por quem se achava superior. Isto aconteceu há menos de 100 anos e mostra o quão actual a crueldade humana é. 

Ontem, em cinco horas, devorei o livro O Tatuador de Auschwitz. Este livro conta a história de Lale, um rapaz que pensava que ao entregar-se aos alemães iria salvar toda a sua família. Apesar de horrível, o que lhe aconteceu não foi o pior que podia ter acontecido. Naturalmente perspicaz, conseguiu, na sua maioria, escapar-se ao trabalho duro dos campos de concentração, recebendo até um estatuto especial ao tornar-se no homem que tatuava os números dos prisioneiros nos seus braços. Esteve três anos em Birkenau, alternando os seus "passeios" entre esta secção e Auschwitz. Lá, conheceu Gita, quando foi obrigado a voltar a tatuar-lhe o braço. Lale conseguiu montar uma, digamos, rede de contrabando nos campos de concentração: as prisioneiras com acesso aos bens das casas pilhadas davam-lhe jóias valiosas, que ele utilizava para pagar bens, maioritariamente comida, que construtores externos lhe traziam. O seu estatuto especial como tatuador permitiu-lhe ajudar dezenas de prisioneiros. 

Este livro é uma montanha russa de emoções. Enquanto O Diário de Anne Frank nos leva numa viagem pelo que é a fuga aos campos de concentração e as condições em que as pessoas foram obrigadas a viver, O Tatuador de Auschwitz leva-nos numa viagem pelos horrores que lá aconteceram. Pelos grupos em massa que foram levados para os crematórios. Pela crueldade dos soldados nazis. 

Enquanto ser humano, e acho que já falei disto aqui antes, acho fundamental sabermos o que a casa gasta. Não fomos nós os responsáveis pela 2ª Guerra Mundial, mas na realidade até fomos. Porque nós olhamos de lado e metemos de parte. Porque ignoramos os problemas que existem. Porque permitimos a chegada de pessoas ao poder, que nunca lá deviam meter um dedo. Porque o nosso sentido de auto preservação é muito superior à vontade de salvar o próximo. Isto foi válido há 100 anos atrás, continua válido agora. 

Preservar a memória do que o ser humano consegue fazer é necessário. Não só por respeito aos sacrifícios que milhares de pessoas fizeram, como por nós respeito a nós próprios. 

Carrego estas histórias no meu coração. Um dia vou visitar os campos de concentração e, provavelmente, chorar com o que vou ver. Já me perguntaram porque raio é que hás-de querer estragar uma viagem com uma visita aos campos de concentração? Para me lembrar que sou uma privilegiada. Para continuar com os pés bem assentes na Terra. Para um dia, se for necessário, ter coragem de perder o sentido de auto preservação e salvar o próximo. Porque aquelas pessoas também estavam seguras, também tinha comida na mesa, um tecto em cima da cabeça e uma vida. Até que deixaram de ter. Até que alguém decidiu que não eram dignos disso por causa das suas crenças. A dada altura deixaram de ser só as crenças. O Lale cruzou-se com um americano em Auschwitz. Estava de férias na Áustria e foi apanhado. Nós estamos todos bem na nossa bolha, mas amanhã podemos deixar de estar. Amanhã podem ser os nossos nomes em folhas como aquelas. 

A minha forma de homenagear estas pessoas é saber o mais que conseguir sobre elas. É a minha forma de demonstrar o quanto as respeito. É também por isso que me sinto tão agradecida pela vida que tenho e que mordo a língua cada vez que me queixo. Porque não importa o que me aconteça, vai ser sempre tão pequenino comparativamente ao que lhes aconteceu.

Quando falo em vítimas do Holocausto, falo também em vítimas de Cherbonyl, Fukushima, Hiroxima e da guerra na Síria. Vítimas das guerras civis. Dos milhentos massacres sobre os quais nunca ouvimos falar.

Somos uns sortudos. Devemos agir como tal.

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