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The Watcher Of Dreams

The Watcher Of Dreams

30
Jan18

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C.

Cresci numa pequena aldeia no meio do Alentejo.

Aqui, as casas são baixas (comparativamente aos prédios nas cidades), brancas e têm rodapés azuis ou amarelos. Quando olhas pela janela, a probabilidade de veres campos verdes a extenderem-se quase até ao infinito é bastante elevada. Tal como é elevada a probabilidade de acordares e ouvires pássaros a cantar. Quando abres a porta de casa, está a rua logo ali. Não tens que descer três andares até encontrares ar livre. 

A estrada nacional passa aqui ao lado, mas não incomoda ninguém. Mal se ouve. Já o sino da igreja, quando toca, ouve-se em todo o lado. 

Os cães andam à solta. Consegues fazer festas às ovelhas. A probabilidade de uma osga te entrar pelo portão da garagem é grande.

Podes ir passear, no meio da estrada, sem te preocupar em ser atropelado. Os carros só passam quase de hora a hora.

Há uma mercearia com as coisas essenciais. Há um café, uma farmácia, junta de freguesia, centro de saúde e loja de móveis. 

Quando anoitece, vês um céu infinito de estrelas. Os poucos candeeiros de rua que existem não iluminam o céu. 

Quando eu era pequenina, os velhinhos já eram velhos. A minha aldeia está cheia de casas vazias por causa disso. Eles morrem e nós, os novos (que não somos muitos), vamos para outros lados. Os empregos estão, pelo menos, a 20 km de distância. O meu está a mais de 150. 

Aqui, há muitas pessoas que se acham melhores que os outros. Como é um sítio pequenino, nota-se muito bem. Foi um dos motivos que me levou a sair daqui.

Fui fazer análises de manhã e encontrei uma senhora, das que leva uma das vidas mais modestas aqui. Chamou-me sempre menina. Quando passava outra pessoa, a senhora dizia bom dia dona x ou bom dia senhor y.

Estava a tratar por "dona" e "senhor" pessoas mais novas que ela. Pessoas que não têm empregos dignos de que os tratem por dona ou senhor. Pessoas que não são, de todo, mais importantes que a senhora que os tratou assim. Curiosamente, foram duas pessoas que se acham melhor que os outros. 

Não gosto de viver num apartamento. 

Não gosto de querer adormecer e de estar sempre a ouvir o trânsito na IC19 ou o comboio da linha de Sintra.

Não gosto do cheio a carros quando, de verão, temos que abrir a janela do carro.

Não gosto de não se conseguir ver as estrelas.

Não gosto de não poder correr no campo, porque ele não existe.

Não gosto de demorar 1h a fazer um caminho de 10 minutos.

Não gosto de muita coisa na cidade.

Não gosto de não me sentir completamente segura ao andar na rua.

Mas, por muito que o Alentejo corra nas minhas veias, por muito que sinta mais saudades do que consigo descrever de viver num sítio assim, nunca voltaria para aqui.

Nunca o faria por causa das pessoas. Porque maioria destas pessoas só têm maldade dentro da carcaça. 

Também nunca o faria porque, para onde quer que fosse trabalhar, ia trabalhar o dobro do que trabalho e receber metade. 

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